Bagatelas - Revista de Contos



ÉBRIOS

 

Havia uma mania de desvendar labirintos. Mania de perdição. Geralmente nos reuníamos à tardinha, já perto do pôr-do-sol. Acendíamos o primeiro cigarro e visões começavam a se formar. Sentados na posição de Lótus, os olhos fixos nalgum objeto abstrato. Através delas, caminhávamos entre ruínas, entre casas com prismas dependurados nas paredes. Via minha tia costurando uma almofada, e a música era Tangled Up in Blue.

Admirável...

A espuma ia sendo costurada lentamente, enquanto eu prestava atenção aos outros bordados. A casa grande, velha... Sentia a insegurança descer goela adentro. Mas a menina que abria a porta, era freira.

Divino...

Eu saia correndo expulsa pelas conversas. Voltava e via os outros, já estendidos no chão. Salgados. Só o meu gosto doce, na boca, poupava e nos salvava do apocalipse. Onde as águas cobriam as pequenas e escassas porções de terras.



 Escrito por Amanda K. às 08h04
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DISSIPAÇÃO

 

Cruzei as pernas e senti uma serpente fria passar por baixo dos pés. Um raio cortando o muro e as unhas que eu limpava planejando a chuva que devia ser às três. Você ao meu lado esquerdo diabo dos sonhos e deus - vida. Peguei o guarda-chuva pra tapar o sol. Andei até suar o pensamento. Volta e meia, lá estava o café quente brigando com o cinzeiro sujo: noites mal dormidas, mal lavadas. Resolvi sentar e roer o resto das unhas. Sangrar umas tapas... Gargalhar. Verdades precisas, pungidas.

Queria umas moedas. Trapos na esquina mendigando corpos, bocas, seios, vida.

 

- What's the matter Mary Jane...

 

O raio a serpente subindo a cabeça, planejando armações se condensando em lágrimas. Eu mona fingida. Você tutor arrastando minha coleira.



 Escrito por Amanda K. às 09h47
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POR UM FIO

 

Escuro de trezentos e sessenta graus. Noite redonda. Faz trezentos e sessenta dias que Dão sumiu, sem nem nos deixar saudade. Caminhávamos distraídos em volta do lago. Tão escuros os cabelos dele. Tinha uma pele limpa e hesitação nos olhos... Esbarrava o nariz:

 

- Outra evidência se mostra, bem aqui, vê?

 

Eu lembro a sombra do cata-vento na cabeça. Corríamos algumas léguas a fim de campos mais vastos, mais... Ar puro, antes das evidências de Dão. Tínhamos o costume de saltar pedras: previsão do futuro. As hélices enormes sugando toda a brisa do caminho espécie de bolha de ar frio e quente, quando dava vontade. Parávamos defronte ao lago, os três, atônitos com a limpidez da água. Assim, derrubávamos pedaços de pau e argila, rente a parede. As mãos amareladas do peso do cata-vento.

 

-Um avião nuvem, ou é nuvem em avião?

-Que?

-...

 

Agora, a noite é redonda, escura, e faz trezentos e sessenta dias que Dão, sumiu, sem nem nos deixar saudade. Ainda cheguei a vê-lo, conspurcado. Vinha do lago puxando um fio, que encontrara lá dentro, com toda sua força. Dão estava tão selvagem... quase sem roupas e alguns pingos avermelhados sujavam a terra. O ódio fazia-o ranger os dentes. Engrolava algumas palavras. Faíscas saiam dos seus pés.

 

- DESCOBRI O FUNDO. EU DESCOBRI. EU...

 

Há trezentos e sessenta... por um fio. Alguns ventos gélidos vêm do oeste e a noite é tão escura...



 Escrito por Amanda K. às 15h21
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SEQUIDÃO

 

Estávamos nós, as duas, esprimidas na janela. Algumas folhas, secas, voavam e os sorrisos iam com o vento. Um cheiro de efemeridade. Foi que me vi sob a varanda e a sensação de ser folha seca. Algo como querer ser carregada por formigas após a queda. Ser dissecada pelo formigueiro e pelo olhar atento de todos os outros andares. Um som longe, uma música, algo como um pop melódico das décadas passadas, ou seria algo mais latino, cubano... de qualquer maneira era percebida a nostalgia.

 

 - Dêem-me uns cigarros. Deram a fumaça.

 

Um caos de palavras e açoites no desequilíbrio das idades perdidas. Eu que apenas começava a me perder, desejei mais uma vez o formigueiro. Desejei me atirar do vigésimo andar e planar feito pluma. Sabiamente digerir as guloseimas e me esconder no ambiente minúsculo. Dar um grito rasgante. E depois cantar um tango. Sair sorrateira entre as tampas e os copos vazios. No caminho encontrar crianças que esperam a casa. Que esperam sentar no parapeito e ver o circo passar com todas as cores. Eu ser o circo.



 Escrito por Amanda K. às 17h11
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III – KÁTIA

 

Sim, quantas vezes pensei em deixá-la, Kátia. Você que me bate todas sextas, sábados e quartas. Me joga de um lado pro outro. Fico olhando esse teu jeito mulher fatal. Sabe o que me segura ainda aqui? São estes teus lábios vermelhos, esses teus olhos pretos vivos, essas tuas pernas longas torneadas, o teu rebolado. Teu sorriso largo me destrói, Kátia. Teus cheiros... Sou teu refém. E é por saber disso que você me controla, me enforca com essa coleira. Me espera nas esquinas. Faz escândalos nos bares que freqüento e me embriago por você. Rasga minha roupa, me unha, joga fora meus livros, minhas cartas, quebra todos meus discos. Joga fora todas as minhas lembranças. Não tenho mais passado desde o dia que te conheci, Kátia. Ah Kátia, faz isso não... um dia ainda pego uma faca e corto tuas amarras, pode crer.



 Escrito por Amanda K. às 08h50
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MULIER, ÈRIS

 

II - CLARA

Ela passava horas, entre as persianas, olhando para a rua. Persianas que balançavam com o vento, e se confundiam junto à pele bege, quase amarela de Clara. Eu costumava pedir que ela tocasse algumas notas no piano, queria mesmo ver seus olhos azuis avermelhados, molhados, escorregadios. Desde que eles vieram com os sorrisos, com os cantos e as danças nunca tocadas pelos ouvidos nem pelas retinas de Clara, ela ficou assim. Quis entender da efemeridade da vida, dos pássaros que vão onde desejam ir. Clara passava horas, entre as persianas olhando para a rua. Rua movimentada apenas pelo bater leve das pálpebras. Eu trazia-lhe um chá fumegante, queria mesmo vê-la tirar o cachecol envolto ao pescoço. Desde que eles se foram ela passou a se vestir por completo, não vejo mais suas mãos pequenas, seus braços finos, nem tão pouco seu cruzar delicado de pernas. Vive assim, entre as persianas esperando o futuro se fazer passado.



 Escrito por Amanda K. às 08h52
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MULIER, ÈRIS

 

I - JOANA

Eu a via sempre entre cinco e seis da tarde. Enquanto tomava um café e fumava meus cigarros, Joana chegava apressada, num fôlego só, destrancava a porta do seu quarto azul, deixava as sacolas e alguns papéis jogados em cima do colchão no chão, pegava as moedas guardadas dentro do pote sobre o armário, ajeitava as enfias do tênis desbotado e novamente saia sorrateira com sua mochila amarela. Ela certamente usava as moedas pra comprar bombons e flores. Corria a tempo de pegar o pôr-do-sol e os meninos pulando do píer para o mar. Despia-se toda e como um deles pulava sem noção da profundidade. Nas mãos as flores bem seguras, para os que ela conhecia lá em baixo. Quando já escuro, saia e entregava os bombons aos meninos que a esperava, sempre atentos, era o silêncio comprado. Assim voltava para casa, destrancava a porta do seu quarto azul, tirava as sacolas e alguns papéis jogados em cima do colchão no chão, e dormia com o cheiro de mar no corpo.



 Escrito por Amanda K. às 08h42
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Às vezes fico imaginando algumas coisas. Algumas coisas chamadas Silvinha. Se ela estivesse aqui ainda comigo, limpando minhas sujeiras, me levando para as festas e para o claro do Sol. Não agüento mais olhar essas paredes riscadas, aqueles pratos sujos. Não suporto esse cheiro de mofo. Silvinha aquela safada autodidata. Nunca falei de mim nunca movi uma palha. Não sei como ela me abriu. Me leu toda, descobriu todos os meus segredos e depois me jogou nesse lixo. Isso não se faz Silvinha, com ninguém, tá me ouvindo!?



 Escrito por Amanda K. às 08h52
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Escovei os dentes antes de dormir. Lembrei do dia em que Joãozinho tomou coragem e se aproximou de mim. Antes dali ficava pelos cantos me espiando, nem sabia ele que já o tinha flagrado. Mas ele era menino limpo demais, nem dava pra sujar um pouquinho. Gostoso escovar os outros. Só que Joãozinho chegou, ensaiado, batendo seu cotovelo no meu braço esquerdo. E aí? Gosta de fazer o que? Gosto de tudo e de nada, extremos. Sabendo ele ser centro, saiu de fininho e nunca mais o peguei pelas esquinas de rabo de olho.



 Escrito por Amanda K. às 08h22
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Era um trem, a vida de Bárbara, um trem. Os cabelos longos, olhos puxados, longínquos, pretos: olhos e cabelos. Ela sentada de lado, braços apoiando a cabeça.Observando sempre além da janela. Pessoas nas paradas, uns adeuses, umas lágrimas. Bárbara nas paradas. Por vezes as matas eram floridas, frutíferas, e dava aquela água na boca, aquela vontade de descer e pegar uma por uma. Noutras só o vento, as folhas secas, e a face entristecida. Tinha pântanos, córregos, tinha mar. Por mais vezes que Bárbara pensasse ou até mesmo quisesse descer, o trem seguia, guiado pelas horas. Tinha hora longa, tinha hora curta. Mas em nenhum momento sentido anti-horário. Assim ia o trem, Bárbara, sempre em frente.



 Escrito por Amanda K. às 07h45
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Pelo fumê

 

Arde, tudo arde. Um colírio. Uma balada do Ednardo mamem amém. Ligação chamando a cobrar. Rascunho no panfleto do curso de oratória. Frio dezoito graus. Mãos geladas.

Dois dias, acabo Sabato, no máximo. E o Sol queimando lá fora. Nem praias têm por aqui.

Até as treze horas. Selo fechar malote. Me mando pelo correio cepe cinqüentaeoitozerotrezedoiscincoum.

Um velho, boné amarelo, conta de luz cortada ontem a tarde. Ali ao lado senhor. Tão feias essas que vestem homem, meia perna, só vinte centímetros teria uma calça perfeita.

Cone laranjabrancolaranjabrancolaranja (mais duas vezes).

Não chego aos quarenta. Procura-se exercício físico.

Paraíba agronegócios. Cajazeiras a cidade que mais cresce no estado. E ainda não me cabe.

Vou fazer sobrancelhas, sexta feira caio fora daqui. Tchau.



 Escrito por Amanda K. às 11h22
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A festa, pensava Julia, na festa. Deitada desde as quatro na cama, cabeça no travesseiro e olhar fixo nas flores. Flores laranja e folhas verdes. Lembrava das pessoas, dos empurrões, das surpresas, dos beijos proibidos. Lembrava das calcinhas da mãe no varal - eram muito mais cuidadas que as delas. Na verdade tudo era reverso, era contrária: a idade, os gostos, as vozes, os telefonemas longos. O laranja das flores ali... contraditório e belo, como os pores-do-sol. O início da noite, as noites de festa. Julia sonhando com os vestidos, as saias levantadas, os rostos pintados. As vozes, ela rodando no centro, tonta. Um gosto acre na boca. O telefone tocando ela indo pra debaixo da cama. A noite de Julia, não seria uma festa, não aquela.

 

 

Acho que a partir de hoje atualizo, aqui, certinho, como prometido. Ótimo carnaval pra todos.



 Escrito por Amanda K. às 19h01
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De repente a unha estava maior, vermelha, e como um gancho saiu puxando toda a carne. Sua intenção, Bete, era fazer sair toda aquela febre que lhe tomava o corpo. Febre de mundo. Febre repelente. Febre dos dias ensolarados. Foi nesse estado que a encontrei a primeira vez. Subiu então em mim a necessidade de correr pelos abismos. As árvores de copas grandes quase encostadas no céu, os rios, a água límpida, tudo de belo lembra ela, Bete, porque quer coisa mais triste que o belo? E ela era tão bonita e triste. Sua camisola os lençóis o quarto a face os olhos azuis molhados. Eu ficava encostado na porta observando todas aquelas pessoas tentando trazê-la de volta. E no fundo eu sabia que nada daquilo adiantaria, era algo mais... mais profundo, entende? Lembro quando a chamaram de maldita e a sacudiram ferozmente na cama... foi como se arrancassem meu coração ainda vivo. Com o passar dos dias, me veio algo... super-herói, eu a podia ter trago comigo, eu podia ter visto ela de novo sorrindo, imagina Bete, ela sorrindo... imagina. Ah meu Deus, seria terrivelmente meu fim, o sorriso dela. Mas ela nunca sorriu pra mim, fiquei apenas com as lembranças das coisas que deveriam ter acontecido.



 Escrito por Amanda K. às 18h18
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Estaria eu sentado naquele banco, cigarro na mão, ambos brancos, cigarro e banco. Greice passaria levemente pelas minhas narinas junto a fumaça. Queria tragar Greice, seu cheiro de fruta fresquinha tirada do pé. Greice e seus peitos, tocados pela ponta de um dos fios vermelho acaju. Na verdade o que mais me encantava nela, era aquela falta de alguma coisa. A falta de... A espera de... Ela trazia isso, naquela tristeza de olhos, e seu azul molhado naquele rio. Eu querendo apenas bebe (la). Nadar em todos os líquidos de Greice. Greice água. Greice lua. Clara, azul, mutante, triste. Ah, Greice se você soubesse... Que lá ao sul, a noite pode ser mais tranqüila e risonha, entre a minha sala e cozinha. Poderíamos brincar quem sabe de esconde-esconde, depois eu poderia pentear seus cabelos, e você me dar de comer pra sempre. Ah Greice! Aceita? Me aceita...



 Escrito por Amanda K. às 14h17
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